Sexta-feira, Fevereiro 24, 2012

BIVÔ JOÃO



Esta foi a primeira coisa que meu bisavô escreveu pra mim. Ele era português, e eu transcrevi aqui exatamente como foi escrito na época, não alterei nem atualizei a gramatica, não removi uma vírgula. Não seria justo com esse grande homem.  
                                                                  
                                                                    
                                                                 Senhor               

Tenho uma novidade
P’ra te contar:
Estou fazendo um palacete!
P’ra mim?  Não, Senhor!
Que idéia!
            Eu lá sou homem
            De morar em palacete!
Mas... vou-te contar a história:
Há tempos, na visita semanal
Eu notava que a menina,
A minha bisneta, a Nanda,
Mal chegava,
Deixava todos na sala
E corria para o quintal,
E sentadinha num banquinho
              Olhava em frente
              O olhar parado,
              Um olhar diferente
              Como quem sonha
              Acordado.
Era um olhar profundo,
De quem está longe do mundo.
E eu dizia comigo, em que pensará?
Mas, eu respeito,
O direito, que tem cada um,
A viver dentro de si.
             E aconteceu, que pela tarde;
             A menina chegou a mim,
             Tomou a minha mão.
             Bivô do meu coração,
             Vem comigo
             E me levou ao quintal.
E ali, apontou
Para o muro ensolarado,
E comentou:
Não fica bem ali?
        - O que minha filha?
        - A minha casinha.
       Tu m’a fazes?
       Escuta vô,
       Não precisa ser grande
       Quatro paredes, um telhado,
       Uma porta, uma janela
       Para entrar o sol;  à volta
       Em toda a volta, um jardim.
       Tu fazes p’ra mim?
Olhei para a menina
E vi apenas, os olhos
Ansiosos, de quem esperava...
              E entendi a mensagem
              Daquêle olhar.
           - Está bem Nanda,
           Eu faço.
           Alí, fica bem.
      E nada, nada mais se falou.
No dia seguinte, logo de manhã,
Eu fui para o quintal.
Abri quatro buracos
E finquei os esteios.
Firmei os baldrames,
Traves, travessas.
Levantei a cumieira.
Depois as mãos francezas,
           E afinal,
           Estava de pé no quintal
           Uma forma, um esqueleto
           Que nem eu sabia definir.
Podia vir a ser,
           Um barraco, um paiol,
           Qualquer cousa, onde o sol
           Entrava, por cima,
           Pelos lados,
Onde podiam caber logo mais
Sonhos, esperanças,
Eu sei lá? Tudo!...
Na verdade o quê?
Eu não sei!
Quem póde traçar as linhas
De um sonho de criança?
No dia seguinte
Armei um ripado tosco
De telhado e
Arrumei uma cobertura.
           Pódes imaginar, Senhor,
           Que espécie de telhado era!
           Havia de tudo:    
           Taboinhas, pedaços de zinco...
Mais um dia.
Armei os aros
Da porta e da janela.
E sem eu sentir,
O domingo chegou.
                Um domingo alegre,
                Manhã rebrilhante de sol.
A Nanda chegou,
Foi correndo p’ro quintal.
E de repente estacou.
E ficou muito quieta
Deante do barraco,
Que nem isso era;
Nem parede dos lados
E nem soalho, não tinha...
Apenas esteios e cobertura...
E todavia, nos olhos da menina,
         Havia enlevo, ternura;
         No seu olhar, palpitava
         O desejo profundo,
         De agradecer.
Eu chegara perto,
Na verdade, muito sem jeito.
         Ela me tomou pela mão
         E, devagar, muito devagar
         Me levou, perto do monstrengo
          Que eu levantara.
E aquêles olhos risonhos
Me fitaram deslumbrados
Vovô!  Que maravilha!
Era isso que eu sonhava!
         Diz,  vovô, é meu?
         E eu
         Bobo, como todo avô,
         Pude apenas responder:
         Sim minha filha, é teu.
Ela me tocou a mão, pensativa;
E voltamos, devagar
Para casa, e notei que ela
Pensava e absorta, caminhava
Olhos fitos no chão...
           Por um momento parou
           E, calma, olhou p’ra mim
           E a meia voz,
           Alçando os olhos
- Que pena vovô! É pena!
- O quê minha filha?
- A vovó não estar aqui!
- É verdade minha filha, é pena. Ela não está!
Ou melhor: Está bem perto,
E, por certo,
Olha p’ra nós,
E sente o que estou pensando!
Mas, acredita minha filha,
Ela está aqui,
Está perto de ti
E de mim.
            E eu entendi que era preciso
            Afastar
            D’aquela alminha em botão
            A amargura, o dolorido pungir
            De todos os dias por vir...
Nanda, a vida é assim mesmo,
Minha filha;
Um dia tudo é lindo,
No outro, nem tanto.
            É assim mesmo, minha filha
            Mas olha que maravilha
            Êste botãozinho de rosa!
         - É mesmo vovô!
E saiu, correndo, gritando
Gugo! Olha. Que cousa mais linda!
E eu Senhor!
Velho cansado,
Fiquei só, a pensar:
Senhor. É verdade, A vida é isto,
Só isto.
Mais nada!
           O sonho do homem?
           Um lar,
           Um logar,
           Onde possa esperar o fim?
           Uma rosa em botão?
Um riso de criança?
Sempre mais uma esperança?
             Diz-me Senhor,
             Será sempre assim?

 Taiguara - Modinha

Obs.: Meu bivô adorava o Taiguara
  

17 comentários:

  1. Fê que coisa linda...através da poesia de seu bisô, voltar a época tão maravilhosa de sua infância...realmente não tem preço...Será sempre assim????

    1000 Beijokinhas

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  2. Maravilha!Isso é um tesouro! beijos,chica

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  3. Tudo que tenho a dizer é: que coisa linda! *-*

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  4. Sim... será sempre assim, desde que se respeite, como ele
    O direito, que tem cada um,
    A viver dentro de si...

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  5. Que coisa mais linda...Isso não tem preço!!
    mil beijos

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  6. Querida mais uma razão para ser muito grata a vida. Um bisavô com alma tão delicada. A sua formação tem a participação desse doce senhor, um senhor que constrói sonhos. Sinta-se privilégiada pela vida,

    Danian.

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  7. Diga-me que musicas escolhes e te direi quem és...

    Só você prá trazer de volta esta musica tão linda, minha amiga mais querida...

    E que linda carta...

    Beijos e te cuida, menina

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  8. Coisa mais fofa e pungente ... queria poder ter conhecido pelo menos meus avós ... q pena ...

    obrigado pelo carinho ... só de vc ser amiga do "ZECA" já diz muito de vc ...

    bjão

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  9. Tem coisa mais gostosa do que avós? Gente... Sempre uma delícia!

    Coisa mais linda e rica esse texto. Tem razão pela emoção, pela saudade. Você sempre foi e é muito amada, viu?

    (Descobri hoje, ao acaso, porque meu openID estava dando erro e resolvi! \o/ \o/)

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  10. Que texto lindo,cheio de sentimentos e lembranças, emocionante!!!
    E a música?Eu amo o Taiguara, cheia de emoção em suas letras!!!
    Fê, maravilha ter um bivô assim, poeta e construtor, além da construção física construiu um sentimento dentro de vc tbém...
    Grande Bj!!!!!

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  11. Que coisa mais linda!!!
    Tô emocionada...

    Beijos!

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  12. Lindo Fê, simplesmente emocionante! Tem coisa mais linda nessa vida do que o sorriso de satisfação de uma criança??? Não tem,né? Beijosss querida!

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  13. OI MENINA FÊ
    LINDO!
    LINDO!
    LINDO!

    SEM MAIS A DIZER...
    BEIJÃO
    JAN

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  14. Lindo! Tô toda arrepiada!

    BeijoZzz

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  15. E eu comecei rindo aqui sozinha e terminei chorando!!! Que coisa linda seu Bivô!!! Que coisa rica!!!

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Adorei ter você aqui, venha sempre pra tomar um café, uma cerveja, um suco ou uma água. Mas venha mesmo tá? Eu te espero!